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07 fevereiro 2008

Viver só

Observar a vida profundamente, ver claramente tudo o que está, sem se agarrar. Praticar o "largar" e assim viver em paz e alegria, isso é viver só.

L’enseignement sur la meilleure façon de vivre seul

01 fevereiro 2008

Atta dipa

ATTA DIPA
VIHARATHA
ATTA SARANA
ANANNA SARANA
DHAMMA DIPA
DHAMMA SARANA
ANANNA SARANA

és a Luz

confia em ti

em nada mais

o Dharma é a Luz

confia no Dharma

em nada mais


"Atta Dipa" é a transcrição das palavras do Buda, na sua língua, o Pali, tais como as disse aos seus discípulos há 2500 anos atrás. "Atta" é "eu;" "Dipa" luz, e a palavra seguinte "viharatha" exprime a sua identidade. Na tradução "Tu és a própria luz." O que significa a identidade do eu e da luz? Por vezes ouvimos pessoas falar de luz interior, como se fosse uma centelha do divino dentro de nós, ou como se a luz fosse a nossa verdadeira natureza, de uma certa forma “enterrada” dentro do nosso eu de todos os dias, ou falso eu. Mas penso que não é isso o que o Buda quis dizer. Não quis dizer que temos uma luz dentro de nós, diz que SOMOS luz.

Que significa esta luz? A luz é literalmente algo que não podemos agarrar, é insubstancial, sem limites. Geralmente não vemos a luz em si, vemos os objectos quando são iluminados pela luz; é só pela interacção com as coisas, pelo seu reflexo, que damos conta da sua presença. A luz não tem forma, não tem fronteiras, e em si está vazia de qualquer particularidade. O eu em que pensamos é exactamente o contrário: circundado pela pele e formado pela nossa própria identidade particular. Afirmar a identidade do eu e da luz é afirmar algo que desafia profundamente a imagem de quem somos. Nas linhas seguintes, "Atta sarana anana sarana", "Sarana" é traduzido como “confia”, “confia em ti”; noutros cânticos encontramos a tradução “toma refúgio”. "Anana": "nada mais." Confia, toma refúgio nesta realização do eu enquanto luz. Tradicionalmente pensamos no Budismo como fundamentalmente preocupado com a questão do sofrimento e como cessar o sofrimento. Todos começamos a praticar à procura de algum refúgio para o sofrimento. O Buda diz que ver o eu como luz é esse refúgio; nada mais pode dar um verdadeiro refúgio para o nosso sofrimento. "Damma dipa." O dharma é luz. O dharma é tanto a palavra que usamos para o ensinamento do Buda, como a própria realidade – cada momento transitório é dharma. A realidade é luz - insubstancial, sem limites. O ensinamento não é um conjunto fixo de crenças ou doutrinas, apenas a realização da impermanência a cada momento. "Damma saranasarana." Confia nesta realidade, não confies em nada mais. Não procures nada permanente ou separado para te defender do sofrimento da vida. Cada momento, impermanente, vazio, a vida tal como ela é, é de facto o único professor.

Barry Magid

02 janeiro 2008

Não existe encontro sem despedida






Parabéns a quem decidiu fazer a passagem de ano "Descobrindo o Caminho Sereno do Buddha". A Casa da Torre, uma casa de retiros pertencente aos Jesuitas, acolheu-nos (quase luxuosamente) no Norte, perto de Braga. Foi o primeiro retiro de Ricardo Sasaki em Portugal e deixou saudades. Ele próprio disse, ao partir, no aeroporto: "Já vou com saudades".

O seu ensinamento focou a importância da compreensão. Para alguns, que procuravam respostas, provavelmente lançou mais perguntas. Mas sobretudo, acentuou a última mensagem do Buda: a auto-responsabilização. Nós somos responsáveis pelo nosso caminho, pela nossa procura, por nos esclarecermos, por despertar. Ninguém pode fazer isso por nós. Mais tarde, no encontro no centro do Porto, salientou a importância do grupo para quem quer iniciar uma prática. O grupo sustenta-nos. Não precisa de ser uma multidão. Nos lugares onde não há um centro de prática, dois ou três praticantes, é um grupo. Sentar, reflectir, descobrir juntos, sustentar-se (em todos os sentidos). Sabendo que o Dharma é o mestre.

Oh, Monges!
Não se lamentem!
Nosso estar juntos um dia acabaria mesmo que Eu vivesse no mundo tanto quanto um kalpa.
Não existe encontro sem despedida.
O Dharma que beneficia tanto o eu como o outro se completou.
Mesmo que Eu vivesse mais não haveria nada a adicionar ao Dharma. Aqueles que deveriam ser despertos, tanto nos céus como entre seres humanos, todos foram acordados. Todos possuem as condições para obter o despertar, mesmo aqueles que não foram despertos. Se todos os Meus discípulos, de geração em geração, a partir de agora praticarem o Dharma, o Corpo do Dharma do Tathagata existirá para sempre e nunca será destruído. Saibam que tudo no mundo é impermanente; o que se junta inevitavelmente se separa. Não se preocupem, pois esta é a natureza da vida. Pratiquem diligentemente com esforço correto e procurem a libertação imediatamente. Destruam a escuridão da ignorância com a luz da sabedoria. Nada é seguro. Tudo nessa vida é precário.
Agora obtenho Parinirvana. É como se libertar de uma doença maléfica. Esta coisa que descartamos e que chamamos de corpo está afogado no mar do nascimento, velhice, doença e morte. Como poderia haver alguma pessoa sábia que não se alegrasse ao se desfazer dele?

Oh, Monges!
Vocês devem sempre, de todo o coração, procurar o Caminho da libertação.

Todas as coisas no mundo, tanto as que se movem como as que não se movem, são caracterizadas por instabilidade e desaparecimento.
Parem, agora!
Não falem!
O tempo passa.
Atravesso.
Este é o Meu Ensinamento final.

Breve Paranirvana Sutra

(fotos de Ricardo Sasaki)


16 dezembro 2007

a parábola dos cegos e do elefante


“Certa vez, aqui mesmo em Savatthi, houve um certo rei que disse para um certo homem, ‘Reúna todas as pessoas de Savatthi que sejam cegas de nascença.”

“’Sim, majestade,’ o homem respondeu e reunindo todas as pessoas de Savatthi que eram cegas de nascença, ele foi até o rei e ao chegar disse. ‘Majestade, as pessoas de Savatthi que são cegas de nascença foram reunidas.’

“’Muito bem, então mostre-lhes um elefante.’

“’Sim, majestade,’ o homem respondeu e mostrou um elefante para as pessoas cegas. Para alguns dos cegos ele mostrou a cabeça do elefante, dizendo, ‘Isto é um elefante.’ Para outros ele mostrou a orelha do elefante , dizendo, ‘Isto é um elefante.’ Para outros ele mostrou uma presa … a tromba … o corpo ... um pé ... a parte traseira … o rabo … o tufo na ponta do rabo, dizendo, ‘Isto é um elefante.’

“Então, tendo mostrado o elefante para as pessoas cegas, o homem foi até o rei e ao chegar disse, ‘Majestade, as pessoas cegas viram o elefante. Faça aquilo que julgar adequado.’

“Então o rei foi até onde estavam as pessoas cegas e ao chegar perguntou, ‘Pessoas cegas, vocês viram o elefante?’

“’Sim, majestade, nós vimos o elefante.’

“’Agora digam-me, pessoas cegas, como é o elefante.’

“As pessoas cegas para as quais havia sido mostrada a cabeça do elefante responderam, ‘O elefante, majestade, é igual a um jarro para água.’

“Aquelas para as quais havia sido mostrada a orelha do elefante responderam, ‘O elefante, majestade, é igual a um cesto para trilhar.’

“Aquelas para as quais havia sido mostrada a presa do elefante responderam, ‘O elefante, majestade, é igual a uma lâmina de um arado.’

“Aquelas para as quais havia sido mostrada a tromba do elefante responderam, ‘O elefante, majestade, é igual à haste de um arado.’

“Aquelas para as quais havia sido mostrado o corpo do elefante responderam, ‘O elefante, majestade, é igual a um celeiro.’

“Aquelas para as quais havia sido mostrado o pé do elefante responderam, ‘O elefante, majestade, é igual a um poste.’

“Aquelas para as quais havia sido mostrada a parte traseira do elefante responderam, ‘O elefante, majestade, é igual a uma argamassa.’

“Aquelas para as quais havia sido mostrado o rabo do elefante responderam, ‘O elefante, majestade, é igual a um pilão.’

“Aquelas para as quais havia sido mostrado o tufo na ponta do rabo do elefante responderam, ‘O elefante, majestade, é igual a uma vassoura.’

“Dizendo, ‘O elefante é assim, não assado. O elefante não é assado, é assim,’ eles golpearam uns aos outros com os punhos. O rei se deliciou com o espetáculo.

http://www.acessoaoinsight.net/sutta/UdVI4.php

18 julho 2007

A condição próxima

“Tal qual quando os devas trovejam e vertem gotas pesadas de chuva no alto das montanhas: A água flui pelas encostas, enchendo as fissuras, rachaduras e valas. Quando as fissuras, rachaduras e valas estão repletas, as gotas pesadas de chuva enchem as pequenas lagoas. Quando as pequenas lagoas estão preenchidas, elas enchem os grandes lagos. Quando os grandes lagos estão preenchidos, elas enchem os pequenos rios. Quando os pequenos rios estão preenchidos, elas enchem os grandes rios. Quando os grandes rios estão preenchidos, elas enchem o grande oceano; assim também, tendo a ignorância como condição próxima, as formações [surgem]; tendo as formações volitivas como condição próxima, a consciência; tendo a consciência como condição próxima, a mentalidade-materialidade; tendo a mentalidade-materialidade como condição próxima, as seis bases dos sentidos; tendo as seis bases dos sentidos como condição próxima, o contato; tendo o contato como condição próxima, a sensação; tendo a sensação como condição próxima, o desejo; tendo o desejo como condição próxima, o apego; tendo o apego como condição próxima, o ser/existir; tendo o ser/existir como condição próxima, o nascimento; tendo o nascimento como condição próxima, o sofrimento; tendo o sofrimento como condição próxima, a convicção; tendo a convicção como condição próxima, a satisfação; tendo a satisfação como condição próxima, o êxtase; tendo o êxtase como condição próxima, a tranqüilidade; tendo a tranqüilidade como condição próxima, a felicidade; tendo a felicidade como condição próxima, a concentração; tendo a concentração como condição próxima, o conhecimento e visão das coisas como na verdade elas são; tendo o conhecimento e visão das coisas como na verdade elas são como condição próxima, o desencantamento; tendo o desencantamento como condição próxima, o desapego; tendo o desapego como condição próxima, a libertação; tendo a libertação como condição próxima, o conhecimento do fim das impurezas.”
Upanisa Sutta